Ecce Homo
A água sabe sempre o caminho.
Crónica de sábado
Já passei dos cinquenta. Quer isto dizer que a morte não fará longo caminho para vir ter comigo. A comédia vai muito avançada. Restam-me para dizer poucas réplicas. Sempre tive os cabelos, os dentes e os pêlos da barba implantados em diversos sentidos. E assim devo ter os nervos e toda a alma. É o que me faz insolúvel às pessoas só num sentido implantadas e incapazes de conceber um tufo de cabelo embaraçado. Esta desordem orgânica só me salvaguarda por afastar de mim os desatentos. E disto também tiro alguma vantagem. Concede-me diversidade, contraste, uma velocidade a inclinar-me, quer para um lado, quer para o outro, de acordo com este ou aquele objecto que me solicita a possibilidade de voltar a pôr-me direito. É verdade que faz o meu dogma obscuro, a minha causa difícil de entender.
Estou sozinho num hotel. Estou sozinho numa enfadonha solidão. Que adoro. Os hotéis não passam de um objecto insonso. Um receptáculo da sociedade. Uma amostra de um mundo absurdo que desconhece a existência da boa educação. Com crianças que galopam entre as mesas e outras que berram por tudo e por nada. Gosto de crianças mas longe dos hotéis e restaurantes. Normalmente nos hotéis não se troca palavras com ninguém. Esta gente mal tem o hábito da palavra. Serve-se apenas da boca para comer. Mesmo assim, cá está o sol a mostrar-se e a pintalgar o nosso bonito mundo.
Créditos - inspirado em Jean Cocteau - A Dificuldade de Ser
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2 comentários
De cheia a 24.08.2024 às 09:24
Um abraço.