Ecce Homo
A água sabe sempre o caminho.
Relato de uma morte calma
Ela dormitava, cabeça encostada nas costas do sofá. Ele, na janela, olhava a rua como quem nada espera da vida. A sua vida tinha o tamanho da rua onde morava. A noite era fria. Um gato vadio miava, chamava as gatas. A rua era apenas um reflexo de lua. Um deserto de esquinas. Um som afastado de carros que vagueavam na autoestrada. A vida descansava no seu olhar. Ele, absorto pensava no significado da vida. Pensava nos degraus que agora lhe custavam a subir. Acabou o seu tempo de reflexão. Voltou para dentro. Chamou-a. Ela não abriu os olhos. Chamou-a novamente. Ela calada. Fria. A vida prosseguia na rua, nas esquinas, no miar do gato. Ela já ali não estava.